sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O TEMPO NÃO PASSOU

O sol e o magnetismo dos matizes. A densidade do calor revolvendo as águas. O calor inundando as janelas. O eclipse como uma noite prematura. Os sinais como transformações místicas.

Afonso terminava de pintar um quadro, quando uma nuvem envolveu o estúdio, tornando o local um quadro vivo, um castelo com torre alta, uma outra época. Ele chegou à porta, com o semblante decidido, e tomou Celeste nos braços. Ela, surpresa, envolta pelo mistério, sentiu seu corpo ser envolvido por uma sensação inebriante, fragrância do amor.

Acordaram ao entardecer, com o desejo exalando dos poros, o amor querendo novas formas. Lá fora, as nuvens eram de várias tonalidades e bailavam à luz ensolarada, após a escuridão astronômica. As sombras, livres, libertas dos grilhões, formavam uma grande roda, de mãos dadas, entoando canções medievais.

Afonso e Celeste eram um só, na dimensão do prazer. Não diziam nada. Não era preciso. Os movimentos, os olhares, os gestos, bastavam. Compreendiam-se. Ela, terna, recebeu um toque na face ruborizada e permitiu que seus sonhos saíssem da caixa de Pandora. Névoas transparentes, pingos de chuva, reflexos, imagens grávidas, pássaros voando em formação, baleias saltando dos mares, dragões soprando labaredas, o céu tansbordando de um azul intenso. Tudo podia ser contemplado, enquanto os lábios encontravam-se, imantados pelo amor.

Passaram-se mil anos, apesar de parecer uma hora. Ali, o tempo não passou, permaneceu cristalizado no relógio de parede derretido, ampulheta imóvel. Cada um enxergava-se nos olhos do outro, viajava pela imaginação do outro, respirava a respiração do outro. Cada um era um espelho em que o outro via seu reflexo. Os dois jamais saíram de perto um do outro. Não podiam. Afonso e Celeste estavam selados pelo amor.

domingo, 29 de novembro de 2009

A REALIDADE DIÁRIA E O ENCANTAMENTO DOS SONHOS

A principal função da literatura é permitir ao indivíduo refletir sobre a vida e o espaço em que está inserido, já que o texto literário, em qualquer gênero — poema, crônica, conto, novela, romance — consiste num processo social, ou seja, faz saber que a existência é muito mais que seguir uma sequência robótica, é poder alterar o contexto do sistema social. Nesse sentido, a literatura é um dos mecanismos artísticos que possibilitam ao indivíduo ter consciência que é sujeito e não objeto, e que a participação é fundamental à construção de uma sociedade igualitária, com base no respeito às diferenças. De um modo geral, a literatura consiste na imaginação que transforma.

A Literatura Brasileira Contemporânea, assim como em outras épocas, é promissora, demonstrando uma vitalidade incrível, com autores que traduzem em seus escritos sonhos, enigmas, angústias, sentimentos e vontades, denunciando arbitrariedades e horrores, criticando normas e ações, propondo novas maneiras de pensar e, a partir daí, reconstruir a realidade.

Por esse prisma, é preciso fazer referência a uma escritora da cidade de Natal, que debutou recentemente no mundo das letras e ainda está se firmando, cujos textos estão dentro do que foi exposto. Seu nome é Janaina Ismênia de Melo, filósofa, psicóloga clínica em formação, cursando biossíntese — formada pelas psicoterapia somática, psicologia pré e perinatal e psicologia transpessoal, com abordagem multidimensional do ser humano, de forma integrada: corpo, emoções, sexualidade, crenças, desejos, necessidades, família, história, relações, etc — e talentosa contista e romancista. Em seu blog:
www.perolaspalavras.blogspot.com, entremeia pensamentos filosóficos e psicológicos, com crônicas e contos, numa prosa poética que conjuga a realidade diária e o encantamento dos sonhos.

Janaina Ismênia cria suas histórias a partir de personagens, sejam reais ou imaginários, e constrói espaços físicos e geográficos, trabalhando os tempos cronológico e psicológico, de modo que sua verve literária é mais cinematográfica que teatral. Isto pode ser observado em dois de seus contos que dialogam na essência: Anatomia da Solidão e Roda Viva.

Anatomia da Solidão é sobre Reginaldo, um auxiliar de serviços gerais do laboratório de anatomia de uma universidade de Natal, alguém relegado à condição de negro e pobre, que não tem outra alternativa, senão observar os alunos e professores de diversos cursos, sonhando em ser médico e atuar na medicina social. Pois Reginaldo vive sozinho, em condições precárias, sem ninguém com quem dividir seus sonhos, por mais improváveis que fossem, e lê compulsivamente diversos clássicos literários. Ele, que teve medo de cadáveres, conversa com eles, como seus confidentes — daí a anatomia da solidão do título. O fato é que apaixona-se por uma estudante de fisioterapia, Aline, que o dispensa humilhantemente, aumentando as desgraças de sua vida. Mas conhece Andréa, outra jovem distante de seu círculo social, porém, a coisas são diferentes. Tornam-se amigos e, inusitadamente, chegam ao casamento, vivendo fora do país. Ele cursa fisioterapia e, por ironia do destino, leciona na Universidade Federal, na turma de pós-graduação de Aline, a mesma que o maltratara, mas não busca uma espécie de vingança. Antes, discursa veementemente aos alunos sobre humanismo, exaltando sua esposa e repudia o materialismo exacerbado, no trecho que é o mais tocante e eloquente do conto.

Roda Viva transcorre na cidade de Brasília e é sobre Alexandre, que, após ser baleado e entrar em coma, fica tetraplégico, tendo que reiniciar a vida aos trinta anos, com as limitações impostas por uma cadeira de rodas — a roda viva do título. Algum tempo depois, começa a trabalhar como vendedor de carros importados e retoma o curso de Direito. Patrícia, a ex-noiva que o baleara por vingança e ciúmes, é condenada a vinte anos de prisão. Porém, mesmo fazendo terapia, apresenta dificuldades de relacionamentos; os traumas eram grandes. Primeiro, numa noite em que ambos estavam embriagados, Patrícia fez questão de dirigir, sofreram um acidente e ela, que estava grávida, perdeu a criança. Segundo, a tentativa de homicídio que o deixara naquela situação. Mas surge Laura em sua vida, colega de Direito, que passa a ser sua amiga. Mesmo a mãe dela sendo contra, pois queria que a filha namorasse o filho de um senador, iniciaram um namoro e se casaram. Adiante, adotaram um casal de gêmeos e mostraram que, havendo amor e determinação, as barreiras são destruídas e é possível vencer o poder da manipulação.

Reginaldo e Alexandre, Andréa e Laura, vivem em lugares distantes, são diferentes em vários aspectos, mas iguais em outros. Principalmente, acreditam no amor e não se deixam vencer pelos preconceitos e mesquinharias que imperam numa sociedade profundamente materialista, que exalta o Ter no lugar do Ser. São vozes dispersas na multidão, que não aceitam o emudecimento. Bradam sobre o que acreditam, defendem seus ideais e vivem a felicidade. São personagens que podem ser encontrados em qualquer lugar, que, neste momento, estão vivendo situações próximas, estão sofrendo, lutando, pensando em desistir, vencendo.

Nesses dois contos, Janaina Ismênia aliou sensibilidade, espírito crítico, esperança e suspense em enredos que poderiam resultar em romances psicológicos, com focos sociais. Duas histórias que dialogam no que diz respeito ao amor e à superação — porque não é possível um sem o outro. Curiosamente, as duas mulheres foram as redenções dos homens, cujas vidas eram escombros. O amor redime. De fato, são contos que instigam a reflexão e enchem de contentamento. Ler essa escritora é instrutivo e prazeroso.